"Somos todos viajantes de uma jornada cósmica, poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias." Deepak Chopra

domingo, 27 de novembro de 2011

Em Nome de Deus

O Fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo



Um dos fatos mais alarmantes do século XX foi o surgimento de uma devoção militante, popularmente conhecida como “fundamentalismo”, dentro das grandes tradições religiosas. Suas manifestações são às vezes assustadoras. Os fundamentalistas não hesitam em fuzilar devotos no interior de uma mesquita, matar médicos e enfermeiras que trabalham em clínicas de aborto, assassinar seus presidentes e até derrubar um governo forte. Os que cometem tais horrores constituem uma pequena minoria, porém até os fundamentalistas mais pacatos e ordeiros são desconcertantes, pois parecem avessos a muitos dos valores mais positivos da sociedade moderna. Democracia, pluralismo, tolerância religiosa, paz internacional, liberdade de expressão, separação entre Igreja e Estado – nada disso lhes interessa. Os fundamentalistas cristãos rejeitam as descobertas da biologia e da física sobre a s origens da vida e afirmam que o Livro do Gênesis é cientificamente exato em todos os detalhes. Numa época em que muitos estão rompendo os grilhões do passado, os fundamentalistas judeus observam sua Lei revelada com uma rigidez maior que nunca, e as mulheres muçulmanas, repudiando as liberdades das ocidentais, cobrem-se da cabeça aos pés com seu xador. Os fundamentalistas islâmicos e judeus têm uma visão exclusivamente religiosa do conflito árabe- israelense, que começou como uma disputa secularista. Mas o fundamentalismo não se limita aos grandes monoteísmos. Ocorre também entre os budistas, hinduístas e até confucionistas que rejeitam muitas das conquistas da cultura liberal, lutam e matam em nome da religião e se empenham em inserir o sagrado no campo da política e da causa nacional.
            Essa revivescência religiosa em surpreendido muitos observadores. Em meados do século XX acreditava-se que o secularismo era uma tendência irreversível e que nunca mais a fé desempenharia um papel importante nos acontecimentos mundiais. Acreditava-se que, tornando-se mais racionais, os homens já não teriam necessidade da religião ou a restringiriam ao âmbito pessoal e privado. Contudo, no final da década de 1970, os fundamentalistas começaram a rebelar-se contra essa hegemonia do secularismo e a esforçar-se para tirar a religião de sua posição secundária e recolocá-la no centro do palco. Ao menos nisso tiveram extraordinário sucesso. A religião voltou a ser uma força que nenhum governo pode ignorar impunemente. O fundamentalismo tem amargado derrotas, mas está longe da inércia. Hoje é parte essencial da vida moderna e certamente influirá nas questões nacionais e internacionais do futuro. É, portanto, crucial que tentemos entender o que esse tipo de religiosidade significa, como e porque se desenvolveu, o que pode nos revelar acerca de nossa cultura e qual a melhor maneira de enfrentá-lo.
            Antes de prosseguir, porém, cabe-nos fazer uma breve pausa para examinar o termo “fundamentalismo”. Os primeiros a utilizá-lo foram os protestantes americanos que, no início do século XX, passaram a denominar-se “fundamentalistas” para distinguir-se de protestantes mais “liberais”, que, a seu ver, distorciam inteiramente a fé cristã. Eles queriam voltar às raízes e ressaltar o “fundamental” da tradição cristã, que identificavam como a interpretação literal das Escrituras e a aceitação de certas doutrinas básicas. Desde então, aplica-se a palavra “fundamentalismo” a movimentos reformadores de outras religiões. O que está longe de ser satisfatório e parece sugerir que o fundamentalismo é monolítico em todas as suas manifestações. Na verdade, cada “fundamentalismo” constitui uma lei em si mesmo e possui uma dinâmica própria. Tem-se a impressão de que os fundamentalistas são inerentemente conservadores e aferrados ao passado, e no entanto suas idéias são essencialmente modernas e inovadoras. Se queriam voltar ao “fundamental”, os protestantes americanos agiram de um modo peculiarmente moderno. Já se argumentou que não se pode aplicar esse termo cristão a movimentos que têm prioridades totalmente diversas. Os fundamentalismos islâmico e judaico, p. ex., não se prendem muito à doutrina, o que é uma preocupação intrinsecamente cristã. Uma tradução literal de “fundamentalismo” árabe nos dá usuliyyah, palavra que se refere ao estudo das fontes das várias normais e princípios da lei islâmica[1]. A maioria dos ativistas rotulados de “fundamentalistas” no Ocidente não se ocupa dessa ciência islâmica, mas têm interesses muito diferentes. O uso do termo “fundamentalismo” é, pois, equívoco.
            Outros simplesmente garantem que, gostemos ou não, a palavra veio para ficar. E tenho de concordar com eles: o termo não é perfeito, mas serve para rotular movimentos que, apesar de suas diferenças, guardam forte semelhança. No início de seu monumental Projeto Fundamentalista, em seis volumes, Martin E. Marty e R. Scott Appleby afirmam que todos os fundamentalismos obedecem a determinado padrão. São formas de espiritualidade combativas, que surgiram como reação a alguma crise. Enfrentam inimigos cujas políticas e crenças secularistas parecem contrárias à religião. Os fundamentalistas não vêem essa luta como uma batalha política convencional, e sim como uma guerra cósmica entre as forças do bem e do mal. Temem a aniquilação e procuram fortificar sua identidade sitiada através do resgate de certas doutrinas e práticas do passado. Para evitar contaminação, geralmente se afastam da sociedade e criam uma contracultura; não são, porém, sonhadores utopistas. Absorvem o racionalismo pragmático da modernidade e, sob a orientação de seus líderes carismáticos, refinam o “fundamental” a fim  de elaborar uma ideologia que fornece aos fiéis um plano de ação. Acabam lutando e tentando ressacralizar um mundo cada mais céptico[2].
            Para analisar as implicações dessa reação global à cultura moderna, quero me ater a alguns poucos movimentos fundamentalistas que afloraram no judaísmo, no cristianismo e no islamismo, as três religiões monoteístas. Ao invés de estudá-los isoladamente, pretendo traçar sua evolução cronológica colocando-os lado a lado, para ressaltar suas semelhanças. Com isso, espero examinar o fenômeno com uma  profundidade maior que a permitida por uma abordagem mais ampla e geral. Escolhi os seguintes fundamentalismos: protestante americano, o judaico em Israel e o islâmico no Egito, que é um país sunita, e no Irã, que é xiita. Não acho que minhas descobertas se aplicam necessariamente a outras modalidades de fundamentalismo, porém espero mostrar como esses movimentos específicos, que estão entre os mais destacados e influentes, surgiram a partir de medos, ansiedades, e desejos comuns que parecem constituir uma reação nada excepcional a algumas dificuldades peculiares da vida no moderno mundo secular.
            E todos os tempos e em todas as tradições sempre houve gente que combateu a modernidade de sua época. Entretanto, o fundamentalismo que vamos analisar é um movimento do século XX por excelência. É uma reação contra a cultura científica e secular que nasceu no Ocidente e depois se arraigou em outras partes do mundo. O Ocidente criou um tipo distinto de civilização, totalmente inédito, que desencadeou uma reação religiosa sem precedentes. Os movimentos fundamentalistas contemporâneos têm uma relação simbiótica com a modernidade. Podem rejeitar o racionalismo científico do Ocidente, mas não têm como fugir dele. A civilização ocidental mudou o mundo. Nada – nem a religião – será como antes. Em todo o planeta há pessoas lutando contra essas novas condições e vendo-se obrigadas a reafirmar suas tradições religiosas, que foram concebidas para um tipo de sociedade inteiramente diverso.
            No mundo antigo houve um período de transição semelhante, que se estende aproximadamente de 700 a 200 a.C. e que os historiadores chamam de Era Axial, porque foi crucial para o desenvolvimento espiritual da humanidade. Esse período resultou de uma evolução econômica – e, portanto, social e cultural – de milhares de anos que se iniciou na Suméria, onde hoje é o Iraque, e no antigo Egito. No quarto e terceiro milênios antes de Cristo, os homens já não se  limitavam a plantar o suficiente para satisfazer suas necessidades imediatas, mas produziam excedentes agrícolas que podiam comercializar e converter em ganhos extras. Assim, conseguiram construir as primeiras civilizações, desenvolver as artes e organizar comunidades cada vez mais fortes: cidades, cidades-Estados e, por fim, impérios. Na sociedade agrária, o poder não se restringia ao rei ou ao sacerdote; ao menos, em parte, seu foco se deslocou para o mercado, fonte da riqueza, de cada cultura. Começou-se a pensar que o velho paganismo, adequado aos ancestrais, já não convinha às novas circunstâncias.
            Nas cidades e nos impérios da Era Axial os cidadãos adquiriam perspectivas mais amplas e horizontes mais extensos, diante dos quais os velhos cultos locais pareciam limitados e provincianos. Em vez de ver o divino incorporado em diferentes deidades, passaram cada vez mais a venerar uma única transcendência, podiam cultivar uma vida interior mais rica; desejavam uma espiritualidade que não dependesse inteiramente de formas externas. Os mais sensíveis se afligiam com a injustiça social que parecia incrustada nessa sociedade agrária, dependente do trabalho de camponeses excluídos da alta cultura. Consequentemente, surgiram profetas e reformadores, dizendo que a virtude da compaixão era crucial para a vida espiritual: a verdadeira devoção se revelava na capacidade de ver o sagrado em todo indivíduo e na disposição para cuidar dos membros mais vulneráveis da sociedade. Assim, brotaram no mundo civilizado da Era Axial as grandes religiões confessionais que continuaram guiando a humanidade: o Budismo e o Hinduísmo na Índia; o Confucionismo e o Taoísmo no Extremo Oriente; o monoteísmo no Oriente Médio; o racionalismo na Europa. Apesar de suas grandes diferenças, essas religiões da Era Axial tinham muito em comum: todas partiram de velhas tradições para desenvolver a idéia de uma única transcendência universal; todas cultivavam uma espiritualidade interiorizada e enfatizavam a importância da prática da compaixão.
            Hoje estamos vivendo um período de transição semelhante, como já dissemos. Suas raízes remontam aos séculos XVI e XVII da era moderna, quando as populações da Europa ocidental começaram a estabelecer um tipo diferente de sociedade, baseada não no excedente agrícola, e sim numa tecnologia que lhes permitia reproduzir seus recursos indefinidamente. Acompanharam as mudanças econômicas dos últimos quatrocentos anos imensas revoluções sociais, políticas e intelectuais, com o desenvolvimento de um conceito da natureza da verdade totalmente diverso, científico e racional; e, mais uma vez, uma mudança religiosa radical tornou-se necessária. No mundo inteiro acha-se que as velhas formas de fé já não funcionam nas circunstâncias atuais: não conseguem prover o esclarecimento e o consolo que parecem vitais para a humanidade. Assim, tenta-se encontrar novas maneiras de ser religioso; como os reformadores e os profetas da Era Axial, homens e mulheres procuram usar as percepções do passado para evoluir no mundo novo que construíram. Uma dessas experiências modernas – por mais paradoxal que possa parecer à primeira vista – é o fundamentalismo.
            Tendemos a achar que nossos ancestrais eram (mais ou menos) como nós, porém  na verdade possuíam uma vida espiritual diferente da nossa. Tinham dois modos de pensar, falar e adquirir conhecimento, aos quais os estudiosos deram os nomes de mythos e logos[3]. Ambos os modos eram essenciais, vistos como métodos complementares de se chegar à verdade, e cada um tinha sua área especial de competência. O mito, considerado primário, referia-se ao que se julgava intemporal e constante em nossa existência. Remontava às origens da vida, aos fundamentos da cultura, aos níveis mais profundos da mente humana. Reportava-se a significados, não a questões de ordem prática. Se não encontramos algum significado em nossa vida, facilmente nos desesperamos. O mythos de uma sociedade proporcionava-lhe um contexto que dava sentido a seu cotidiano; dirigia sua atenção para o eterno e o universal. Também se arraigava no que chamaríamos de inconsciente. As histórias da mitologia, que não pressupunham uma interpretação literal, constituíam uma forma antiga de psicologia. Quando contavam histórias de heróis que desciam ao mundo dos mortos, percorriam labirintos ou lutavam com monstros, as pessoas traziam á luz as regiões obscuras do subconsciente, que é incessível à investigação puramente racional, mas tem um profundo efeito sobre nossa experiência e nosso comportamento[4].
            O mito não comportava demonstrações racionais; suas percepções eram mais intuitivas, como as da arte, da música, da poesia, da escultura. O mito só se tornava realidade quando incorporado num culto, em rituais e cerimônias que tinham um impacto estético sobre os devotos, inspirando-os a apreender as correntes mais profundas da existência. Mito e culto eram tão inseparáveis que cabe aos acadêmicos discutir o que surgiu antes: a narrativa mítica ou os rituais a ela ligados[5]. O mito também estava associado ao misticismo, ao mergulho na psique através de estruturadas disciplinas de concentração que todas as culturas desenvolveram para tentar chegar à percepção intuitiva. Sem culto ou práticas místicas, os mitos religiosos não teriam sentido. Continuariam sendo abstratos e incríveis, mais ou menos como uma partitura musical que precisa de intérprete para expor sua beleza.
            O mundo pré-moderno tinha uma visão diferente da história. Interessava-se menos que nós pelo que efetivamente acontecera e se preocupava mais com o significado do acontecimento. Via os incidentes históricos não como ocorrências únicas, situadas numa época distante, e sim como manifestações exteriores de realidades constantes, intemporais. A história tendia, portanto, a repetir-se, pois não havia nada de novo sob o sol. As narrativas históricas tentavam ressaltar essa dimensão eterna[6]. Assim, não sabemos o que de fato ocorreu quando os antigos israelitas escaparam do Egito e atravessaram o mar Vermelho. O episódio foi registrado deliberadamente como mito e relacionado com outras narrativas referentes a ritos de passagem, imersão nas profundezas e deuses que abrem mares para criar uma nova realidade. Os judeus vivenciam esse mito anualmente nos rituais da Páscoa, que transportam essa estranha história para sua vida e os ajudam a incorporá-la. Poderíamos dizer que, para tornar-se religioso, um fato histórico tem de ser mitificado desse modo e libertado do passado num culto inspirador. Perguntar se o êxodo do Egito aconteceu exatamente como está na Bíblia ou exigir evidências históricas e científicas que comprovem sua verdade factual equivale a desentender a natureza e o propósito desse relato. Equivale a confundir mythos com logos.
            Igualmente importante, o logos é o pensamento racional, pragmático e científico que permite a boa atuação do homem no mundo. O sentido do mythos pode ter se perdido no Ocidente moderno, mas o logos nos é familiar, constitui a base de nossa sociedade. Para ser eficaz, o logos, ao contrário do mito, precisa funcionar com eficiência no mundo profano. Usamos esse raciocínio lógico e discursivo quando temos de suscitar acontecimentos, conseguir alguma coisa ou convencer os outros a adotarem determinado procedimento. O logos é prático. Ao contrário do mito, voltado para as origens, o logos avança e tenta encontrar algo novo: explorar velhas percepções, adquirir maior controle sobre o meio que nos cerca, descobrir e inventar novidades[7].
            Mythos e logos eram indispensáveis para o mundo pré-moderno. Dependiam um do outro para não empobrecer. Contudo, eram essencialmente distintos, e considerava-se perigoso confundir seus discursos. Cada qual tinha sua função. O mito não era racional; suas narrativas não comportavam demonstrações empíricas. O mito fornecia contexto que dava sentido e valor às atividades práticas. Tomá-lo como base de uma política pragmática podia ter conseqüências desastrosas, porque o que funcionava bem no mundo interior da psique não se aplicava necessariamente aos assuntos do mundo exterior. Por exemplo, ao convocar a primeira cruzada, em 1095, o papa Urbano II agiu no plano do logos. Queria que os cavaleiros europeus parassem de lutar entre si e de dividir a cristandade ocidental e fossem gastar suas energias numa guerra no Oriente Médio e ampliar o poder a Igreja. No entanto, quando essa expedição militar se misturou com a mitologia popular, textos bíblicos e fantasias apocalípticas, o resultado foi catastróficos do ponto de vista prático, estratégico e moral. Durante o longo período das cruzadas, seus participantes prosperaram sempre que o logo prevaleceu. Tiveram bom desempenho no campo de batalha, fundaram colônias viáveis no Oriente Médio e aprenderam a relacionar-se satisfatoriamente com a população local. Quando começaram a basear sua conduta numa visão mítica ou mística, amargaram freqüentes derrotas e cometeram terríveis atrocidades[8].
            O logos também tem suas limitações. Não pode aliviar a dor ou o sofrimento. Argumentos racionais não explicam uma tragédia. O logos não sabe responder perguntas sobre o valor da vida humana. O cientista pode tornar as coisas mais eficientes e descobrir fatos maravilhosos acerca do universo físico, porém não consegue decifrar o sentido da vida[9]. Isso compete ao mito e ao culto.
            No século XVIII, todavia europeus e americanos alcançaram tamanho sucesso no campo da ciência e da tecnologia que começaram a ver o logo como o único meio de se chegar à verdade e o mythos como falso e supersticioso. Também é verdade que o mundo novo que estavam construindo contradizia a dinâmica da antiga espiritualidade mítica. Nossa experiência religiosa no mundo moderno mudou e, considerando verdadeiro unicamente o racionalismo científico, um número cada vez maior de indivíduos com freqüência tem tentado transformar em logos o mythos de sua fé. Os fundamentalistas vêm fazendo a mesma tentativa. Essa confusão tem gerado mais problemas.
            Precisamos entender como nosso mundo mudou. Assim, a primeira parte deste livro focaliza a final do século XV e o inicio do século XVI, quando os europeus ocidentais passaram a desenvolver sua nova ciência. Examinaremos também a devoção mítica da civilização agrária pré-moderna a fim de compreender o mecanismo das velhas formas de fé. No admirável mundo novo a religião convencional está ficando muito difícil. A modernização sempre foi um processo doloroso. As pessoas se sentem alienadas e perdidas quando ocorrem em sua sociedade mudanças fundamentais que tornam o mundo estranho e irreconhecível. Estudaremos o impacto da modernidade sobre os cristãos na Europa e na América, sobre os judeus e sobre os muçulmanos do Egito e do Irã. Então, estaremos em condições de avaliar o que os fundamentalistas pretendiam quando se puseram a criar essa forma de fé no final do século XIX.
         Os fundamentalistas acreditam que estão combatendo forças que ameaçam seus valores mais sagrados. No decorrer de uma guerra dificilmente uma das partes em luta tem a visão clara da posição da outra. Veremos que a modernização levou a uma polarização da sociedade, mas às vezes, para evitar uma escalada do conflito, precisamos tentar compreender o sofrimento e as percepções do outro lado. Para quem, como eu, aprecia as liberdades e as conquistas da modernidade, não é fácil entender a angústia que elas causam nos fundamentalistas religiosos. Contudo, a modernização muitas vezes implica agressão, em vez de libertação. Pouca gente sofreu mais que os judeus no mundo moderno; assim, começaremos por seu doloroso embate com a sociedade modernizadora da cristandade ocidental, no final do século XV, que levou alguns deles a recorrer a muitos dos estratagemas, das posturas e dos princípios que posteriormente se generalizariam no mundo novo.

Karen Armstrong 
livro Em Nome de Deus



[1] Abdel Salam Sidahared e Anonshiravan Ehteshani (eds), Islamic Fudamenalism (Boulder, Colo., 1996),4.
[2] Martin E. Marty e R. Scott Appleby, “Conclusion: na Interim Reporto n a Hypothetical Family”, Fundamentalisms Observed (Chicago e Londres, 1991), 814-42.
[3] Steiner, In Bluebeard’s Castle, 23-4.
[4] I. F. Clarke, Voices Prophesying War: Future Wars 1763-3749, Ed. Rev. (Oxford e Nova York, 1992), 37-88.
[5] Charles Royster, The Destructive War: William Tecumseh Sherman, Stonewall Jackson and the Americans (Nova York, 1991), 82.
[6] Alan T. Nolan, Lee Considered:  General Robert E. Lee and Civil War History (Chapel Hill, N. C., 1991), 112-33; Charles B. Strozier, Apocalypse: on the Psychology of Fundamentalism in America (Boston, 1994), 173-4, 177.
[7] Robert C. Fuller,  Naming the Antichrist: the History of na American Obsession (Oxford e Nova York, 1995), 111, 148)
[8] Paul Boyer, When Time Shall Be No More: Prophecy Belief in Modern American Culture (Cambridge, Mass., e Londres, 1992), 87-90; George M. Marsden, Fudamentalism and American Culture: The Shaping of Twentieth Century Evangelicalism, 1870-1925 (Oxford e Nova York, 1980), 50-5; Strozier, Apocalipse, 183-5.
[9] II Tessaçpmocenses 2,3-8.

sábado, 26 de novembro de 2011

Congresso Sacerdotal FTU

Pesquisa: religiões afro-brasileiras no Rio são vítimas de intolerância

Publicação: 20/11/2011 16:22 Atualização: 
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Rio de Janeiro – Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) sobre religiões afro-brasileiras no estado do Rio comprova denúncias de intolerância religiosa. Dados preliminares do Mapeamento das Casas de Religiões de Matriz Africana no Rio de Janeiro, que identificou 847 templos, revelam que 451 - mais da metade - foram vítimas de algum tipo de ação que pode ser classificada como intolerância em razão da crença ou culto.

No estado com a maior proporção de praticantes de religiões afro-brasileiras na população (1,61%), segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas com base no Censo 2010, a pesquisa da PUC-Rio identificou templos em 27 dos 92 municípios fluminenses. Embora não represente a totalidade das casas religiosas desse segmento no estado, de acordo com uma das coordenadoras, a professora Denise Fonseca, o mapeamento é o primeiro a tratar de casos de intolerância religiosa.

Encomendada pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), a pesquisa começou em 2008. Em fase de análise, indica que varia o tipo de violência contra os templos. Segundo Denise Fonseca, a maioria dos casos relatados pelos entrevistados são "pequenas sabotagens", mas também agressões. "Os relatos vão desde carros sendo multados por uma polícia que nunca entra em determinada comunidade nem de dia nem de noite - a não ser em dia de atividades religiosas - até a situação de pai de santo sendo espancado por praticantes de outras religiões", disse.

Como os dados do mapeamento estão sendo avaliados caso a caso, a professora explica que o perfil dos agressores requer uma "análise cuidadosa". Mas adianta que os relatos apontam para uma confirmação de estatísticas da Polícia Civil, sendo os praticantes de religiões neopentecostais os principais violentadores do templos de matriz africana. "Não temos provas tangíveis, concretas, mas há um conjunto de indícios que constituem um quadro bastante claro", declarou a coordenadora.

O ataque de neopentecostais contra as religiões afro-brasileiras tem parte da explicação no próprio preconceito sofrido pelo grupo, segundo o teólogo da Igreja Presbiteriana de Copacabana, reverendo André Mello. Ele explica que, para se afirmar, o grupo precisou "fazer barulho". Conquistou veículos de comunicação e amplificou as estratégias para se proteger e para angariar fiéis. "O problema é que o próprio campo religioso não sabe lidar com a diversidade", avaliou.

Por outro lado, segundo a PUC-Rio, as maiores vítimas são os candomblés da Baixada Fluminense. Embora os ataques precisem ser mais bem estudados, Denise Fonseca avalia que os praticantes acabam mais "visíveis para serem atacados" porque naturalmente exibem sinais de "pertença racial", ou seja, "é o fenótipo dos praticantes, os símbolos sagrados e o alinhamento aos valores do terreiro. Essa externalidade os torna alvos mais visíveis, mas não mais vulneráveis", explicou.

A agressões praticadas por facções criminosas também são denunciadas por sacerdotes, mas ainda não estão evidentes no mapeamento. Segundo o representante do conselho de lideranças religiosas que acompanha a pesquisa da PUC-Rio, pai Pedro Miranda, da União Espiritista de Umbanda do Brasil (Ueub), em alguns episódios, a intolerância reflete "interesses comerciais", já em outros, ocorre em função da influência de seguidores de religiões neopentecostais.

"Na zona norte, em comunidade dominada, traficantes impediam trabalhos em tendas porque o som dos atabaques atrapalhava o controle da chegada da polícia", disse pai Pedro, que, como representante do templo onde atua, responde a processo criminal por excesso de barulho durante suas cerimônias. "Em outra comunidade, na qual um segmento de evangélicos escondia um traficante, em troca, a facção criminosa impedia os templos de realizarem suas atividades", completou.

Há três anos, em um serviço pioneiro no país, responsável pelo acompanhamento de casos de intolerância religiosa no Rio, o delegado Henrique Pessoa, da 4ª Delegacia de Polícia, corrobora o dado da pesquisa. "Maciçamente, os agressores são neopentecostais", disse. "Eles têm um discurso que acaba na violência", declarou, ao informar que recebe cerca de 40 denúncias por ano.

Em fase de conclusão, com a previsão de ser apresentado em 2012, o mapeamento da PUC-Rio também constatou que centenas de templos têm projetos de assistência social. A maioria dá apoio a políticas públicas de distribuição de renda, suplementação alimentar para crianças, desenvolvem projetos de educação de jovens e adultos e de saúde.

O mundo em transformação

Crianças e adolescentes estão certos que não havia civilização antes do Google e da Apple

Walcyr Carrasco

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Eu me sinto um dinossauro. Surpreso, mas fascinado com este mundo em turbilhão. Vou fazer 60 anos em dezembro. Quase tudo que me cerca era inimaginável quando eu era criança. O mundo foi reinventado diante de mim, estes anos todos. Na minha infância, em Marília, no interior de São Paulo, não havia televisão. Telefone só para a elite. Era preciso se inscrever e aguardar cinco, seis anos para a instalação de uma linha. Ou comprá-la a peso de ouro, de alguém que a transferisse, manobra impensável para minha família de orçamento limitadíssimo. Hoje o mundo é dos celulares. Recentemente, meu aparelho caiu no chão e quebrou. Entrei em surto até conseguir outro, novinho, em que coloquei o mesmo chip. Aposto que já tem psicólogo tratando crise de abstinência de celular. A primeira televisão de minha família, quando me mudei para São Paulo, aos 15 anos, era em preto e branco. O tempo voou. E com ele as invenções se insinuaram na minha vida: TV colorida, CD, videocassete, DVD e Blu-ray. Quando dou palestras em escolas, tento explicar como era a vida sem e-mail e videogame. Crianças e adolescentes me encaram desconfiados. Devem achar que sou maluco. Estão certos que não havia civilização antes do Google e da Apple. Já pensei em criar um conto de fadas para explicar. Algo assim:
– Há muitos e muitos anos, em um tempo em que não existiam e-mail, Twitter ou Facebook, vivia uma linda princesa...
Decidi ser escritor aos 12 anos, quando descobri os livros de Monteiro Lobato, emprestados por uma vizinha. Sonhava com uma máquina de escrever. Ainda lembro da tarde, aos 13 anos, em que meu pai subiu as escadas de nosso sobradinho e anunciou o presente: uma Olivetti portátil, comprada à prestação. Papai era ferroviário, e a máquina pesou nas contas. Mas eu queria ser escritor, o que fazer? Em seguida me inscreveu num curso de datilografia, em que aprendi a batucar o teclado com todos os dedos. (Os cursos de datilografia também sumiram, junto com as máquinas de escrever, é claro.)
Agradeço papai para sempre. Hoje sou autor da Rede Globo. Escrevo os capítulos das novelas com muita velocidade. Sorte minha ser datilógrafo formado.
Comprei meu primeiro computador pessoal com pouco mais de 30 anos. O protecionismo nacional na área de informática era absurdo. O tal computador parecia movido a lenha. Mas adorei. Principalmente porque acabou a guerra com os vizinhos do prédio que não suportavam o plec, plec, plec da máquina, pois sempre escrevi de madrugada. Na ocasião, eu trabalhava como editor em uma grande revista. Um colega torceu o nariz. Achava o computador algo muito esquisito. Mostrei a enorme redação repleta de máquinas de escrever. Banquei o futurólogo:
– Um dia todas serão trocadas por computadores.
– Duvido!
Não demorou cinco anos. Assisti à informatização do jornalismo. Foi cruel, como em outras áreas. Muitos ganharam estágios para absorver a nova tecnologia. Outros não. E acabaram expelidos do mercado de trabalho. Cheguei a ajudar um ex-diretor de arte a arrumar vaga de zelador de prédio. Há uma necessidade constante de me manter atualizado. Sempre existe um novo programa, aparelho, invenção à espera. Sou autor de livros, novelas de televisão, peças de teatro, crônicas e inumeráveis artigos. Ganhei prêmios. Mas acabo derrotado por qualquer garoto de 8 anos, capaz de, diante de um modelo novo de celular, desvendar no ato programas que incineram meus neurônios.
Cursei alguns anos de faculdade de história, na Universidade de São Paulo. Tento me distanciar e entender o que se passa. Creio que, daqui a 100, 200 anos, um historiador vai olhar para a minha, a sua vida e teorizar que vivemos no bojo de uma mudança de Era. Tão profunda quanto a da Antiga para a Média e desta para a Moderna e a Contemporânea. Qual será o fato que determinou a passagem? A invenção do iPad? Steve Jobs terá a mesma importância de Colombo? Seremos, eu e você, objetos de estudo. Até neurológico.
– Como os cérebros se adaptaram a tantas mudanças?
As invenções são o aspecto mais visível de roupas, restaurantes, livros, viagens, teorias, jeitos de ser e de amar. Vou escrever sobre a realidade em contínuo movimento. Sobre nossa época, desafiadora e fascinante. E contar como meus miolos fervem ao descobrir que alguma coisa inexistente até ontem se tornou absolutamente essencial, e já não posso viver sem ela. Nos anos 1960, os hippies anunciavam o advento da Era de Aquário. Pois é. Seja qual for o nome, a Nova Era já chegou.
Revista Época - Coluna de 30/09/2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Nova agressão fundamentalista ao Estado Laico e às minorias: PEC 99/11

Posted by Eleiçoes Hoje on novembro 19th, 2011 10:52 AM. Under Notícias


Por Karla Joyce

Como se não bastasse a realização de cultos em dependências de órgãos públicos como a Presidência da República e Senado Federal, Parque Gospel no Acre, obrigatoriedade de bíblias em bibliotecas públicas, ameaças ao Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação para que esta voltasse a transmitir programas religiosos na TV pública, e a concessão de passaportes diplomáticos a pastores evangélicos (Edir Macedo e R. R. Soares),  a Bancada Teocrata lança uma nova ameaça ao nosso (frágil) Estado Laico.
Em outubro deste ano, o deputado federal João Campos (PSDB – GO) apresentou à Câmara dos Deputados uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa acrescentar associações religiosas com capacidade pra propor ações de constitucionalidade e inconstitucionalidade no STF. É uma ação aparentemente simples, porém esconde uma verdadeira agressão ao Estado Laico e aos direitos civis de minorias.

Que projeto é este e do que estamos falando?
Falamos da PEC 99/2011 que “dispõe sobre a capacidade postulatória das Associações Religiosas para propor ação de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade de leis ou atos normativos, perante a Constituição Federal”.
Para entender melhor a questão, devemos ir à Constituição Federal e consultar quem são as instituições capacitadas a questionar junto ao STF a (in)constitucionalidade de algum dispositivo. Estas estão listadas no artigo 103 de nossa Carta Magna, que diz:
“Art. 103. Podem propor a ação direta de inconstitucionalidade e a ação declaratória de constitucionalidade:
I – o Presidente da República;
II – a Mesa do Senado Federal;
III – a Mesa da Câmara dos Deputados;
IV – a Mesa de Assembléia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal;
V – o Governador de Estado ou do Distrito Federal;
VI – o Procurador-Geral da República;
VII – o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil;
VIII – partido político com representação no Congresso Nacional;
IX – confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional.”
Fonte: Planalto
Este conjunto de legitimados acima é quem, dentro do Estado brasileiro, estão aptos para o controle de constitucionalidade de normas jurídicas junto ao STF, propondo ADIN (Ação Direta de Inconstitucionalidade) e ADECON (Ação Declaratória de Constitucionalidade). Esse status é conferido a este grupo restrito por sua posição de importância dentro do Estado Brasileiro. Nesse conjunto está caracterizado que alguns tipos de entidades representativas podem usar deste instrumento, como a Confederação Sindical e a Entidade de Classe. Porém, não é tão simples como aparenta ser.
Para a existência de uma Confederação Sindical, é necessária a união de três federações sindicais, que, por sua vez, consistem na união de cinco sindicatos. Já a Entidade de Classe deve ter base social e estar representada em nove Unidades da Federação. As duas entidades só poderão propor quando demonstrarem ligação entre seus interesses e o conteúdo da norma questionada. Estas restrições demonstram o tamanho da responsabilidade para a proposição de uma ADIN ou ADECON para que estas não fiquem banalizadas .
A PEC 99 traz outro tipo de entidade representativa. A Associação Religiosa é quando uma denominação ou grupo religioso tem reconhecimento perante a lei com caráter representativo e seus respectivos estatuto e ata de fundação registrados em cartório.  O Novo Código Civil confere personalidade jurídica às organizações religiosas (entre elas a Associação) e  estabelece, no §4º do artigo 44, que “são livres a criação, a organização, a estruturação interna e o funcionamento das organizações religiosas, sendo vedado ao poder público negar-lhes reconhecimento ou registro dos atos constitutivos necessários ao seu funcionamento” (LEI No 10.406, DE 10 DE JANEIRO DE 2002.). Logo, a associação religiosa possui um privilégio de se organizar sem que o Estado possa nega-lhe o reconhecimento de sua criação por qualquer motivo que seja, graças ao lobby evangélico em 2003 (A Reação dos Evangélicos ao Novo Código Civil).
Por aqui vemos que há a facilidade irrestrita destes grupos se organizarem, muito diferente dos requisitos estabelecidos para as Confederações Sindicais e Entidades de Classe. Além do perigo de inúmeras associações religiosas surgirem com este propósito (algo que por si só já caracteriza um privilégio e um descompasso com a Constituição), há a oculta pretensão deste projeto: os ataques aos direitos das minorias.
Acima do Bem e do Mal
Essa PEC surgiu quando as tentativas de João Campos e outros teocratas de questionar a decisão do STF a respeito da união homoafetiva não resultaram em nada. A via que utilizavam era por meio de projetos de decretos legislativos (PDL) e a Mesa da Câmara dos Deputados, por meio do Presidente da Casa, decidiu que a decisão do STF não poderia ser revista por PDL por não se tratar de competência do Legislativo.
O grande e grave problema é que Religião, aqui no Brasil, é vista como algo acima do bem e do mal, livre de eventuais “falhas ou defeitos”, composta somente de “anjos, iluminados” ou “homens idôneos”. Se depender de algumas lideranças evangélicas, isto está bem longe de ser verdade, como já comentei aqui (Digo Não ao “Kit Gay” Parte 2). Poucos se lembram de que Religiões são construídas por seres humanos, sejam suas regras, templos, textos. E estes possuem diversas motivações: seja a inspiração divina (a qual não nego a existência) ou o controle de pessoas tendo em busca o poder. Neste último caso, a história da humanidade mostra os males que este fim pode provocar e como a Bancada Teocrática vem fazendo o uso disto para esconder sua hipocrisia e arregimentar mais eleitores. E menos se lembra de que a Religião integra a sociedade, não esta fora dessa, uma vez que influencia e é influenciada pelas pessoas. Esta é uma conversa para outra hora.
Para exemplificar o tamanho do problema, imaginemos uma situação onde o casamento homoafetivo é aprovado pela PEC do deputado Jean Wyllys (PSOL – RJ) e a PEC 99/2011 seja aprovada. Imaginemos também um universo (já existente) onde inúmeras associações religiosas existem. Qualquer uma ou várias destas poderá (ão) propor uma ação no STF considerando o casamento homoafetivo inconstitucional. Ou se o aborto for descriminalizado ou legalizado no país. Ou para depreciação de religiões que “não são da maioria”. Ou se normais venham a regular o ensino religioso nas escolas públicas. Ou para o uso de símbolos religiosos. Ou impedir o debate sobre legalização de determinadas drogas como a maconha. Ou até mesmo impedir que o Governo preste assistência e informação sobre educação sexual e DST/AIDS São ações que poderão ser propostas em reação a todas estas medidas que já estão em vigor ou que venham a vigorar. Silas Malafaia, Marco Feliciano, Ronaldo Fonseca poderão, por meio de suas “associações”, entrar com ações de controle de constitucionalidade. Portanto, não é uma medida que apenas LGBT’s, atinge a luta feminista, a luta pelo Estado Laico, das religiões minoritárias, etc.
Gostaria de frisar que essa incapacidade (quase que cuspir, jogar pedra e dançar/cantar Like a Prayer da Madonna sob Cristo crucificado) que se tem e está presente em vários(as) deputados(as) federais de questionar a parte mundana da Religião podem garantir a aprovação desta PEC. Não se está percebendo que é, novamente, a tentativa de influência da Religião no Estado, e não o inverso (respeitado os limites) como deveria ser! Essa incapacidade fez com que 186 deputados e deputadas assinassem a PEC, permitindo assim que ela pudesse tramitar na Câmara.
E quem assinou?
Neste link vocês poderão conferir quem foram os(as) que concordaram com esta proposição. Como a lista é grande, a distribuição por partidos é da seguinte forma:
Partidos
Assinaram
DEM
8
PC do B
3
PDT
10
PHS
2
PMDB
29
PMN
2
PP
13
PPS
3
PR
20
PRB
7
PRTB
1
PSB
15
PSC
14
PSDB
25
PSL
2
PT
14
PTB
11
PTC
1
PT do B
1
PV
5
Total
186
O gráfico abaixo mostra a proporção da participação dos partidos nessa PEC:
Participação dos Partidos Na Assinatura da PEC 99/11
Participação dos Partidos Na Assinatura da PEC 99/11
Outro ponto a ser destacado é que as bancadas teocráticas (PSC, PRB, PR) participaram em massa na assinatura de autorização desta proposição. O gráfico a seguir faz uma comparação entre a quantidade de assinaturas de um partido para a PEC 99 e sua bancada na Câmara:
 A alta adesão da bancada teocrática e a diversificação das assinaturas em partidos como o Bloco PSB/PTB/PC do B, PMDB, PSDB, PDT e PT mostram que a PEC 99 conseguiu grande adesão. O alerta vermelho deve ser aceso, pois, além dessa grande adesão, muitos (as) parlamentares podem, propositalmente ou não, estar se atentando ao perverso detalhe da interferência da Religião no Estado. Não está se enxergando que o “que mal tem uma associação religiosa ter controle de constitucionalidade” pode gerar males e criar raízes mais profundas para a instauração da teocracia brasileira.
A luta tem que começar:
Os teocratas costumam jogar que “feministas, comunistas e gays querem impor suas crenças aos cristãos”. Mas o que eles promovem é que nos acusam: querem impor um único modelo de religião cristã, que é diversa também, aos que não compartilham de suas filosofias e ideologias. Vemos que o Governo pouco tem feito para proteger as minorias. Nada o impede que não o faça no futuro, mas o que mostra é que, quando precisam atuar neste campo, precisam da bênção dos caciques políticos evangélicos para se protegerem da “maldição do eleitorado religioso”.
Não podemos mais ficar calados e caladas diante esta nova e mais nefasta ameaça à democracia, com a imposição de uma vontade de uma “maioria” que se julga legítima e se julga até mesmo ser maioria. As pressões nas redes sociais levaram o questionamento do tão falado Parque Gospel, podemos conseguir mostrar esta agressão ao Estado Laico que se desenha.
Leia Mais Em: http://www.eleicoeshoje.com.br/estado-laico-pec-99-11/#ixzz1ef1kdq7m

PS:  "Fé cega, faca amolada!"
Obaositala

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Fotos do IV Congresso Brasileiro de Umbanda!

http://sacerdotemedico.blogspot.com/2011/11/iv-congresso-brasileiro-de-umbanda-do.html

Prof. Dr. Ivan Vilela na FTU! Não percam!

A Faculdade de Teologia Umbandista
convida para a Palestra: Cantando a própria história, com o Prof. Dr. Ivan Vilela
Dia 28 de novembro (segunda-feira às 21h)

Prof. Dr. Ivan Vilela
Ivan Vilela é professor da Faculdade de Música da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Doutor em Psicologia Social pela USP e Mestre em Composição Musical pela UNICAMP. Atua como compositor, pesquisador, arranjador e instrumentista. Suas pesquisas são voltadas ao universo da Cultura Popular Brasileira e da MPB. Atualmente leciona Percepção Musical, História da Música Popular Brasileira e viola (instrumento).

Objetivo: A FTU tem a honra de convidar para a palestra “Cantando a Própria História”, a qual abordará a cultura, música, musicalidade, língua e o povo caipira. A palestra é resultado da tese defendida pelo Prof Ivan Vilela na Universidade de São Paulo na área de Psicologia Social sob orientação de Ecléa Bosi.
Público-alvo: docentes, discentes, músicos e demais interessados pela cultura popular brasileira.
Será emitido certificado de participação .
Data: 28 de novembro às 21h na FTU
Valor: R$ 15,00 (simbólico, em virtude dos custos com a emissão do certificado e despesas com o uso do espaço na FTU)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Rito de Exu - convivência pacífica nas religiões afro-americanas

2º Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras


O Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves – CADONe a Fundação Cultural Palmares – FCP, realizam a segunda edição do Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras, com o objetivo de atender às expressões artísticas de estética negra, dos segmentos de teatro, dança e artes visuais.
Os projetos serão avaliados de acordo com os seguintes critérios:
  • Excelência artística;
  • Histórica e efetiva contribuição artística para a cultura afro-brasileira;
  • Pertinência do conteúdo à questão afro-brasileira;
  • Qualificação dos profissionais;
  • Viabilidade técnica de execução, com base no valor do prêmio.
A primeira seleção de projetos, realizada em 2010, foi elaborada a partir do contato próximo aos grupos, artistas e companhias, que trabalham com a produção artística de matriz africana e em atendimento à demanda do Fórum de Performance Negra. Com o patrocínio da Petrobras, através da lei Rouanet, foi possível contemplar 20 projetos, selecionados nas cinco regiões do Brasil, totalizando mais de 1 milhão em prêmios.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Congresso FTU - Sérgio Ferretti

Maior especialista do culto Casa das Minas tombado/IPHAN, o antropólogo Sérgio Ferretti estará em congresso em SP

Autor: 
 
O antropólogo Sérgio Ferretti, maior especialista no estudo do culto Casa das Minas (tombada pelo IPHAN em 2002), e a esposa e também antropóloga Mundicarmo Ferretti (pesquisadora no culto dos encantados) estarão em São Paulo nos dias 11, 12 e 13 de novembro para participar do IV Congresso Brasileiro de Umbanda do Século XXI - Arte, Filosofia e Ciência nas religiões afro-brasileiras.
Promovido pela FTU (Faculdade de Teologia Umbandista , autorizada pelo MEC , Portaria 3864 , de 18/12/03), o Congresso, realizado no mês em que se destacam movimentos de conscientização e homenagens à cultura negra, reunirá mestres e doutores respeitados no Brasil e no mundo.
a quarta edição nacional e primeira internacional, terá um enfoque interdisciplinar como forma de melhor compreender a cultura afro-americana.
Tambor de Mina é a denominação mais difundida das religiões afro-brasileiras no Maranhão e na Amazônia. A palavra tambor deriva da importância do instrumento nos rituais de culto. Mina deriva de negro da Costa da Mina. Religião iniciática, de transe ou possessão, que na sua versão mais tradicional não faz cerimônias públicas de saída. É realizada com grande discrição no recinto dos terreiros e poucas pessoas recebem os graus mais elevados ou a iniciação completa.
Em 1983, Sérgio Ferreti enviou ao fotógrafo e etnólogo Pierre Verger sua dissertação de mestrado “Querebentã de Zomadônu. Etnografia da Casa das Minas” (3ª ed. RJ: Pallas, 2009), jamais imaginava que ali seria o início de uma forte amizade.
Verger passou a acompanhar com todo interesse os  trabalhos do amigo sobre a Casa das Minas do Maranhão, local de culto afro-brasileiro de raízes jeje. Historiador por  formação tendo recebido os melhores ensinamentos de Gustavo Barroso, Darcy Ribeiro e Maria Yedda Linhares, Ferretti acabou optando pela Antropologia dedicando-se há mais de três décadas ao estudo da Casa das Minas. É considerado o maior especialista do assunto no Brasil.
Em 1993, a convite de Verger, Ferretti viajou à África (República do Benim) para participar de um seminário promovido pela Unesco. O seminário marcava os 500 anos da abertura do comércio de escravos e na mesma data comemorava-se o fim dos 20 anos do governo comunista que proibira o Vodum, culto a divindades ancestrais do povo africano.
Ferretti e Verger foram amigos até a morte do fotógrafo, em 1996, tendo trocado várias cartas até então. Entre os projetos que pensavam em realizar estava o de publicar um livro com fotos que o francês havia feito do Maranhão, nos anos de 1947 e 1948. As imagens ainda permanecem inéditas na Fundação Pierre Verger em Salvador, em meio às mais de 60 mil deixadas pelo etnólogo. É um projeto por realizar, de acordo com Ferretti.
O IV Congresso Brasileiro de Umbanda do Século XXI terá também a participação de Francisco Rivas Neto, médico especializado em Cardiologia e Medicina Intensiva pela Universidade de São Paulo e que é Sacerdote das Religiões Afro-brasileiras há mais de quatro décadas, seu tema será Teologia do Ori e Bará.
Rolf Alexander Prade, pesquisador renomado de referência internacional  no  estudo na genética, colocará todo o seu saber em favor do tema Os Genes dos Sentimentos. Volney José Berkenbrock, doutor em Teologia pela Faculdade de Teologia Católica da Universidade Federal de Bonn, Alemanha. Experiência Religiosa e Teologia. Silas Guerriero  Dr.Prof. em antropologia da PUC-SP falará a respeito das novas Religiões e novas Espiritualidades: um desafio para a compreensão da Religião. Wagner Lopes Sanchez, Mestre em teologia (missiologia) pelo Instituto São Paulo de Estudos Superiores.Teologia e Sociedade: pertinência, aproximação e desafio.
O congresso realiza ainda a comunicação de trabalhos de mestrados e graduados em três GTs, coordenados pelos professores Irene Dias; Memória, Cultura e Identidade, Maria Helena Villas Bôas Concone e Ensino Religioso e Sérgio Junqueiro.
Histórico do Congresso:
2008 - I Congresso Brasileiro de Umbanda do Século XXI. Tema: A Umbanda do Século XXI. Entre outros destacamos a participação de Patrícia Birman (UERJ), Reginaldo Prandi (USP-SP), Luís Assunção (UFRN).
2009 - II Congresso Brasileiro de Umbanda do Século XXI. Tema: Do Sicncretismo à Convergência. Entre outros destacamos a participação de Roseli Fischman (USP), Vagner Gonçalves (USP).
2010 - III Congresso Brasileiro de Umbanda do Século XXI. Tema: Religiões Afro-brasileira aproximando os Saberes. Participação de José Flávio Barros, Valdemir Zamparoni (UFBA), Julio Moracen (CUBA).
A FTU é também a instituição é responsável pelo curso de Pós Graduação Lato Sensu: Teologia de Tradição Oral - Memória, identidade e cultura das religiões afro- brasileiras.
Inscrições e informações: http://www.ftu.edu.br
imprensa@ftu.edu.br